Olhos de Gigante

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Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.

Almada Negreiros

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Pesadelo

O cenário muda mas o pesadelo persiste todas as noites. Apareces sem ser convidado. Entras. Começas com uma pergunta ligeira, respondo educadamente. Parece real. O teu odor é mais intenso, convida-me a sorrir. Resisto. Fico fascinada nos dedos e na forma como se movem. Peço que me toquem, mas não to digo. Beijas-me o pescoço e estremeço enquanto sinto a roupa deslizar. Fico nua. Não consigo ver te. De olhos vendados, sinto o teu corpo no meu. Acordo.

Todas as noites o mesmo pesadelo.