A rapariga que sonhava com redes de pesca

A rapariga que sonhava com redes de pesca hoje lacrimejou. Acordou com coração em sobressalto e sem aparente motivo algum, simplesmente chorou. Como um lavar de alma de pensamentos desconexos em sonhos. Perguntava-se por que chorava?, Não tinha resposta e deixou-se ficar nessa forma de expressão pouco enxuta. Recordou com saudade quando se quedava na cama junto ao colo fofinho e simplesmente chorava enquanto a mão amiga lhe afagava os coracóis. E perguntava: ” Mas por que choras tu tanto, rapariga?”. Talm como hoje, a rapariga teria respondido :”Não sei.”

moinho mare mourisca 021

Infância

Diz-se que no instante antes de morrermos vemos a vida passar à frente. Muita coisa se diz, pouco se sabe. Aqueles que vivem o momento de morrer, não vivem para o contar. Hoje despedimo-nos de ti, pancinhas, o melhor coração desta família. A teimosia colocou-te dependente de não puderes ser dono de escolher o teu fim e de defender a tua dignidade. Hoje despedimo-nos de ti e uma coisa é certa, se fosses tu a despedir-te de nós terias dado todo o amor, carinho, presença, flores, esse teu riso e bom humor, a dignidade que se pode dar como último alento a quem parte e consolo a quem com dor e tristeza vê partir (sem perceber) quem ama.

Todos os bêbados lá estavam. A família. Os amigos. As pessoas que fazem parte da história que nos une estavam lá todas (excepto os que já partiram). Não chorei na tua despedida, pancinhas. Sabia que estavas naquele caixão mas preferi não olhar, adiar essa realidade.

No instante da tua despedida, revivi a minha infância. O não comer. O ficar de casa em casa de todos os amigos que se despediam de ti (e tantas memórias, tantas, hoje presentes). Do café. Das pastilhas gorilas e gelados que me davas às escondidas. De fazer as mousses de chocolate na tigela verde. De comer com as mãos e rallharem comigo que não se fazia em público. Mas a casa de pasto era minha casa. Do sofá preto com riscas. De te estragar a mesa de snooker às escondidas. De gostar de servir à mesa mesmo sem chegar ao balcão. Adorava lavar a loiça naquele lavatório de pedra (ainda gosto). De mexer em tudo na dispensa. Das lotarias e rifas. Do cão (do qual gritava e fugia de medo que nem uma tonta). Da boneca linda que amei naquele Natal. Do dia em que distraída fui (a pé) contra o sinal stop e me perguntavas quem me tinha batido na escola que ias lá. Disse te a verdade que ninguem me tinha batido. Chorava! Aflito, tu, de coração partido, dizias me para contar a verdade e não ter medo de dizer a verdade. Mas eu disse a verdade o olho negro em forma geométrica é que bati num sinal de trânsito STOP.

Para sempre connosco, descansa com Deus.

Descansa em Paz Pancinhas, com Amor.

Como dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não

Vinícius de Morais

Setúbal-20130331-00848